31 de Agosto, 2005

Alentejo & Beira

“O Alentejo que conheço desde pequena, aliás, o Alto Alentejo (Baixo, só de passeio), incorpora um desespero muito à Espanca (ou não fosse ela calipolense, mas atribuo - lho mais tragicidade e menos lirismo, tornando - o mais sólido e menos difuso, menos pálido e mais presente no panorama nacional, possuindo características entroncadas de sonho inacabado à semelhança da planície que ele traja, sonho inacabado esse porque a planície tece-lo - o deserto invoca a miragem, a planície o sonho. É um engano, uma máscara de terror, ver toda a liberdade aos nossos pés, não há limite no nosso horizonte mas não haver nada, nada com que nos sintamos satisfeitos. Sempre mais. O Alentejo pede mais e nunca oferece esse mais, é terra demoníaca.

 

A Beira trava, a Beira limita, a Beira auspicia o fim, até o corvo faz mais sentido aqui que em qualquer outro sítio do país. Esta gente granítica, lapidada e polida ano após ano continuando rústicas, com as arestas pintadas ano após ano de branco, continuando sujas, vê os seus sonhos confinados à terrível tarefa rotineira de levar a sua vida a bom porto (alegoria descontextualizada, aqui não há mar e ainda bem que não há). A montanha, cuja subida é por si extremamente penosa, representa um obstáculo que parece enviado dos céus. Aqui vives revoltado por não te darem a hipótese de sonhar – o trigo é destruído antes de lhe ser dada a hipótese de crescer. As rugas da Beira são rugas talhadas de resignação, trabalho e força. A montanha é o limite. A Beira é o aborto do sonho.

 

A Beira e o Alentejo são as únicas terras cujas gentes vivem à roda de sonhos. A Beira esquece – os e fortalece – se. O Alentejo alimenta – os e fragiliza – se.”

 

O texto é meu. Está entre aspas porque foi criado durante uma conversa. Pensado em passeio por Seia e Gouveia.

Escrito por Silvia em 21:01:29 | Link permanente | Comments (6) |

28 de Agosto, 2005

“Perdi a esperança como uma carteira vazia…

Troçou de mim o Destino, fiz figas para o outro lado,

E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó

E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.

 

(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,

E depois tomava – se chá nas noutes socegadas que não voltam.

Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram,

Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,

Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)”

Álvaro de Campos

 

 

(O pastel de Belém está prometido. Acabei por não seleccionar as partes para ti. Tu identifica - las. Um beijinho*)

Escrito por Silvia em 18:48:29 | Link permanente | Comments (3) |

27 de Agosto, 2005

Utopia? Ou conformismo?

Ainda a temática dos incêndios. Num noticiário de uma televisão nacional que vi no dia seguinte ao regresso (23), uma reportagem expressava a incredulidade de um jornalista alemão perante a situação dos incêndios. "Um país que consegue erguer dez estádios de futebol para um Euro2004 não consegue acabar com isto". A situação se não fosse catastrófica seria ridícula. Ainda na mesma reportagem, uma entrevista a um português de férias no Algarve, esse mesmo senhor dizia: "É triste, porque encaramos isto como uma coisa que tem que invariavelmente acontecer." Ao testemunho acertado e sensato do senhor, acrescentaria a palavra "inevitavelmente". Ou seja, Portugal encara os incêndios (e tudo o mais, já lá chegaremos) como algo que tem que invariavelmente e inevitavelmente acontecer.

 

Ano após ano, enquanto vemos a mata da Sra. Maria arder e a casa do Sr. Manuel, aprendemos a encarar as chamas laranjas como parte de um fado, de um destino a que um país tem que se reger. Mais, longe de nos conformarmos apenas com aquilo que aparentemente é natureza, adoptámos também esse conformismo ao que é a natureza HUMANA. Os incendiários existem e ponto final. Para o ano, a minha mata vai arder porque vai aí andar um tipo com gasolina.

 

90% das matas são privadas. Hoje em dia, já ninguém apanha caruma em troca de comida, como acontecia aqui há bastantes anos atrás. No início deste flagelo, aliás, no recomeço anual deste flagelo, no mês passado, um autarca (a minha memória não me permitiu fixar a sua localidade) apelava pelo microfone em jeito de desabafo: "Dêem poder às autarquias para poderem proceder à limpeza das matas". Bom ponto de vista. Gostei. Manter essas matas inacessíveis do ponto de vista de actuação é desenterrar o mal pela própria raiz, da protecção do privado surge a calamidade pública. É evidente que isto não é assim tão linear. Nem se faria assim do pé para mão. Há burocracia e o inevitável jogo de interesses por trás. Estas últimas três frases vão exactamente contra tudo aquilo que acredito. Mas tive que as dizer, porque se não tinha aí meia dúzia de comentários a chamar – me utópica.

 

Utopia. Palavra usada em vão, erroneamente, descuidadamente, constantemente e irritantemente. Na boca dos que a usam para justificar a vontade de não trabalhar. Na boca dos que esperam que o pão lhes caia do céu.

 

Usam – na em tudo. Tanto a podem usar para classificar o facto de Portugal passar a produzir menos lixo nos próximos trinta anos como para ilustrar o toldo novo na mercearia da vizinha que visa aumentar as vendas. Usam – na os meninos que aprenderam uma palavra nova sem saber ainda o que significa trabalho e, impacientes, não sabem ainda o que é tempo. Essa é a razão porque Portugal está como está – porque tudo o que dá trabalho e implica tempo é considerado utópico, e como tal, destinado apenas aos livros e às colunas de jornal. Assim, Portugal todo ele, é o país da utopia barata, da utopia forjada e encontrada como justificação para as barrigas grandes e os charutos caros.

 

A Sra. D. Maria da Assunção vive no lote 11 da Urbanização D e apercebeu – se que faltava um jardim na urbanização que nem nome de gente tem. Dirige – se aos responsáveis. "Minha senhora isso é tudo muito bonito. Mas não vou fazer um jardim para as crianças brincarem quando as crianças passam o dia em casa a jogar playstation. E também não vou fazer um jardim para uns velhos que não tarda morrem. E também não vou fazer um jardim para os casais passearem porque há muitos divórcios e os que estão juntos têm muito que fazer. É uma utopia pensar que o jardim algum dia iria ter utilidade. Utopia."

 

É claro que é uma utopia, pensa a Sra. D. Maria da Assunção. Os senhores tinham toda a razão.

 

Com este pensamento, a Sra. D. MdA, tida como activista nos organismos responsáveis pela construção dos jardins, foi para casa e deixou de ser activista. De que lhe serviria encetar uma luta inglória em prol de uma causa abandonada? E é este mesmo pensamento que leva os activistas a deixarem de o ser, que leva os que estranham a habituarem – se, que levam os que pensam a conformarem – se. E neste país, fruto de gerações de pão na mesa e nada de lutas para se ter arroz à valenciana, as Sras. Donas Marias da Assunção recebem sempre a mesma resposta. E se tiverem o azar de serem moças novitas, ainda levam com a idade na cara.

 

Visitemos o bairro da Sra. D. MdA. Não chove. A mãe do Pedrinho do 4º andar está de baixa (não foi por acaso que escolhi esta situação para a pobre senhora. É mais que normal, foi acertar numa parte alta da curva em campânula.) e então optou por ficar com o filho em casa. O Pedrinho já jogou todos os jogos de playstation que tem em casa. E, que azar, logo por causa dos incêndios, faltou a luz. Já nem o computador liga nem a televisão dá. O Pedrinho aborrecido vai à janela do quarto andar e olha cá para baixo. Que é que ele faz? Não há nada para fazer. Que seca.

 

Não há nada que o cative, lá de fora não há nada que o chame, que lhe desperte a imaginação e a vontade de sair.

 

Não podemos sentir a necessidade dos chocolates Ferrero se nunca nos puserem a embalagem à frente e nos espetarem com publicidades sedutoras. Dá trabalho fazer uma publicidade de jeito. E a publicidade vai da divulgação ao produto, uma caixa atraente é outro passo a dar. Leva tempo até comprarem os chocolates. Leva ainda mais tempo a gostarem do chocolate. Leva tempo a tornarem – se consumidores assíduos. Mas acontece.

 

Assim é com tudo. Desde a sensibilização ambiental ou a sensibilização para o "aperta o cinto" até ao toldo da mercearia da vizinha. Mas não tem um fim porque não tem um percurso coerente. Não têm o trabalho e não são pacientes.

 

Enquanto não incutirmos esse espírito, Portugal vai continuar a ser o país da utopia barata.

 

Enquanto continuarmos a não acreditar no tempo este vai passar por nós sem se fazer nada.

 

Enquanto não se acreditar no trabalho, este não vai ser feito.

 

Utopia e conformismo não, trabalho e tempo por favor.

Escrito por Silvia em 19:52:39 | Link permanente | Comments (7) |

26 de Agosto, 2005

"O velho e o fogo, a seca e o tonto"

Está muito bom: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=50&id_news=189186

Escrito por Silvia em 18:16:05 | Link permanente | Comments (1) |

25 de Agosto, 2005

Pessoas rasas.
Escrito por Silvia em 23:52:43 | Link permanente | Comments (1) |

24 de Agosto, 2005

Tunísia

Cheguei a Lisboa segunda-feira à noite, o avião com uma hora de atraso. Cheguei há pouco a casa :). Balanço positivo desta viagem.

 

Não será novidade afirmar que a Tunísia é um país totalmente diferente. Lógico e previsível dado as diferenças espaciais e religiosas que condicionam e muito o carácter de um país.

 

A chegada ao aeroporto não teve nada de impressionante. As letras árabes ao lado das ocidentais Habbib Bourguiba (indicando o nome do aeroporto) é que faziam lembrar aonde tínhamos acabado de aterrar.

 

Um aeroporto grande e concorrido como Monastir pareceu, à primeira vista, o aeródromo de Viseu. Uma coisa pequenina e mal organizada, rudimentar com filas e filas para mostrar os passaportes (como tudo é tão fácil na União Europeia!). Uma grande faixa, em árabe e em francês, dizia (li obviamente na segunda língua que mencionei) "Bienvenue aux Tunisiens residant à l' Etranger". Nós agradecemos a hospitalidade.

 

Não tardámos a perceber a razão da especificidade das boas-vindas. Depois de termos recolhido as malas e sermos enfiados no autocarro 34 da Travelplan (hey, o autocarro para Lloret também era o 34 lembrei-me agora! que coincidência :) ), tivemos que andar ainda cerca de três quartos de hora até Sousse, onde ficaríamos hospedados em Port de Kantaoui. Pelo caminho, passámos não apenas por várias localidades, sendo as cidades maiores Monastir e por fim Sousse. Bandeiras por todo o lado. Bandeiras, claro está, tunisinas. A bandeira vermelha com a lua e a estrela branca não figurava apenas em vários edifícios, como era enfeite de rotundas, de ruas, pequeninas, grandes, miniaturas ou oficiais. Ainda pensei que fosse tempo de festa, mas não. Aquilo é mesmo assim. Quer no litoral, quer no interior, nas regiões mais inóspitas do deserto ou nas montanhas, a bandeira figura em todo o lado. Mas não é a única presença oficial. A foto do Presidente aparece por todo o lado, em todas as casas, hotéis, lojas ou barracas de venda, no litoral ou no meio do deserto. E depois, são os seus cartazes, como se estivessem em propaganda eleitoral. Umas vezes aparece de frente, outras de lado, outras a sorrir, algumas de traje tradicional árabe, outras de fato ocidental (procurar o apoio dos conservadores/fundamentalistas e dos que tornam a Tunísia num país turístico? Talvez.). O culto ao chefe num regime presidencialista nacionalista!

 

Três dias de circuito intensivo, mais um dia de excursão opcional fora do pacote, permite afirmar que ficámos efectivamente a conhecer o país. Os que optaram por fazer mini - circuito, não se limitaram a ficar numa estância turística, totalmente ocidentalizada longe da realidade do país em que muitos dos seus habitantes sofrem de uma total inadaptação económica e social. As várias etnias berberes, os bairros chiitas, a fraca ou nula noção de ambiente ou ecologia, os meios agrícolas encontrados para fazer face às dificuldades em que o clima hostil os coloca, compõem a Tunísia enquanto país do Norte de África, com o deserto do Sahara e islâmico.

 

A Tunísia dispõe de um riquíssimo e vasto património histórico, resultado das inúmeras ocupações a que foi sujeita no passado. O anfiteatro de El Jem é o 3º maior anfiteatro romano do mundo (o primeiro é, obviamente, o Coliseu de Roma). Foi a primeira visita feita. Vendedores, vendedores por todo o lado. Um dinar, um dinar, ouve - se isto por toda a parte. Uma voz que dificilmente esquecerei, foi a de um homem a berrar aos quatro ventos, à entrada do anfiteatro de El Jem, "PORTUGUESES, PORTUGUESES, ÁGUA DO LUSO, ÁGUA DO LUSO PORTUGUESES". Bom olho para o negócio. Espanhóis e portugueses compõem a grande parte dos turistas, com maior percentagem dos primeiros (o que também não é de admirar). Lá, as pessoas falam três ou quatro línguas. Francês (obviamente, também), Inglês, Espanhol e depois o Portinhol e o Italianhol, ou seja falam espanhol mas dizem bom dia e bon journo ou lá como se escreve. O droit de photo é que ameaçou estragar o encanto perfeito das ruínas de El Jem a erguerem - se no céu. 1 dinar em todos os monumentos para tirar fotos. Livra.

 

A terra calcinada e estéril, com oliveiras (no interior, mas ainda não deserto), está repleta de plásticos, garrafas e sacos, abandonados no campo, à beira das estradas, nas ruas de terra batida. Vêem - se rebanhos (os animais magros), crianças e mulheres, sempre com saias e lenços a trabalhar no campo. Sucatas de pequenas dimensões aparecem também no meio do campo. Lixo, tanto lixo. Cactos que dão figos. As construções parecem ruínas, tijolo e adobe. Há muitos materiais de construção abandonados e vêem - se as crianças a brincar ao pé de uma máquina de fazer cimento enquanto o cavalo ao lado come qualquer coisa rodeado de galinhas. As estradas não têm traçado no interior, conduz - se arbitrariamente, contra-mão, sem cinto, ultrapassando ora pela esquerda ora pela direita. À beira da estrada vende - se gasóleo em garrafões de plástico (como não podia deixar de ser). Quando vemos uma povoação e paramos, verificamo - nos com "Câmbios", ou seja Bancos, rudimentares, onde os funcionários fumam, o serviço é lento e aquilo não tem a nenhum de caixa - forte. Continuamos pela estrada. Poços antigos, baldes com roldanas. Os veículos que passam por nós são na sua maioria velhos e todos sujos, de tal forma que a grande maioria das matrículas nem se vê. Porém, em cada cruzamento há sempre polícia, sem excepção. À noite, há muitas pessoas nas localidades, mas poucas ou nenhumas mulheres. O sinal de trânsito STOP está escrito em árabe também. Passamos de casas sem telhado para pequenos palacetes, com arcos e abóbadas. Creches ou escolas para crianças, a indicação está escrita em árabe mas têm pintados na parede o pato Donald e o rato Mickey. Portugueses? Oh, Figo! Maria Burroso! Pauleta, Mourinho! Figo finito... finito Figo.

 

Casas trogloditas. Com temperaturas superiores a 45ºC viver debaixo da terra parece um pequeno paraíso. Berberes. Moer o pão, tecer. Mãos e pés pintados das mulheres casadas, quanto mais escura a pigmentação, há mais tempo estão casadas. Prata berbere.

 

Deserto, tempestade de areia. Complicado, no deserto sem óculos encostados à cara e lenço no nariz tornar - se - ia complicado andar de camelo. De jipe no deserto. Condução maluca e dizem - nos que não é preciso pôr o cinto. Eu ia com o cinto bem posto e agarrada ao banco e mesmo assim a minha cabeça batia ritmicamente no tecto do jipe, dado os solavancos enormes que conduzir com velocidade em dunas aquilo provoca. Uma mala caiu de um jipe. Pára o jipe para se apanhar a mala. Atolou. Vamos empurrar o jipe. Pronto, já está. Mais à frente. Outra mala caiu, partiu o vidro de um. Não faz mal, continuamos. Descer dunas íngremes!

 

Continuamos. Lago salgado, muito iodo. Miragens ao fundo. Barracas de venda (como em todo o lado), mas esta dizia "Más barato que en carrefour!" e "Mujer española es estupenda". Fronteira com a Argélia, Chebika (outra etnia berbere). Vivem em montanhas que só vira em filmes, e afinal, fora lá mesmo que foram filmadas algumas cenas de Star Wars. As ruínas do povo antigo. As construções onde vivem os actuais quatrocentos Chebika. Vivem das minas de fosfato e da agricultura que praticam. 48ºC à sombra. Ali há uma nascente, e questionamo - nos como pode uma pequena nascente alimentar um oásis daquele tamanho. Aconselharam - nos vivamente a não beber daquela água que nos “desenrrajaria” os intestinos. Eles já estavam habituados, diziam. Crianças, só crianças a descer as montanhas. Um miúdo pede - me que lhe tire uma foto e espanta - se com os seus olhos verdes quando lha mostro.

 

Cascata Maior do deserto. Coitadinha. Pouco maior é que a nascente anterior e que a nascente do Rio Mondego. Mas é a maior cascata do deserto, claro, o que também não é muito difícil. Impressionante.

 

Simulação de um casamento berbere. Turistizado, ao máximo. Impecável organização e serviço, numa tenda lindíssima, com refeição completa, vinho rosé e tinto, espectáculos de malabarismo, homens a cuspir fogo, música tradicional, encantamento de serpente, e claro, dança do ventre. Simulação de lutas árabes com cavalos, mostrando as suas habilidades com os animais através da sua própria flexibilidade. Não gostei muito disto porque depois a agradecerem os aplausos aproximavam a espada da pata do cavalo e este encolhia as pernas - a intenção era a vénia, mas dava para imaginar o quanto os animais foram torturados com a espada para o medo para com ela ser tanto.

 

Visita aos oásis. Três níveis de cultivo. As palmeiras, as mais altas, dão sombra às árvores de fruto (romãs, figos, amêndoas, não há muita variedade também), que por sua vez dão sombra aos produtos agrícolas como as abóboras, as couves, e claro, não podia faltar, o piri - piri e as malaguetas. Sobem três vezes à palmeira num ano. A primeira, para fazer polinização artificial (a palmeira macho é a mais alta), o que significa directamente mais tâmaras. A segunda, é para a poda - cortam os ramos secos. A terceira é para comer. Dão a beber sumo de palmeira e sentem - se bem em ensinar coisas que nos deixam encantados. Falhou um bocado a mostrarem que depois de retirarem o sumo da palmeira (cortam a palmeira e tiram de lá) o tronco que vai crescer a partir daí é menos grosso. Falaram aquilo como que a mostrar algo sobrenatural, de um modo que me enterneceu. Pena a biologia tirar - me todo o encanto e saber que o sumo nada mais é que o floema e que é perfeitamente natural que o caule seguinte cresça mais pequeno - crescimento centrífugo. Cruel ciência. Visita a um bairro Chiita. Mulheres vestidas todas de preto. Não olham para nada nem para ninguém. Só crianças. Portas pintadas de verde no interior (por causa das palmeiras), de azul na costa (mar). Três batedores, um para a mulher, outro para o homem, um mais baixo para as crianças. Fast Food em alfabeto ocidental e em letras árabes, num bairro onde as mercearias escuras faz lembrar o início do século XX. Miúdos a pedir, muitos miúdos, tanta criança!

 

Kairouan, terra dos tapetes e o 4º Santuário religioso islâmico do Mundo. A arte da tapeçaria de Kairouan tem muito que se lhe diga, extremamente trabalhosa e bastante demorada.

 

Sousse, Medina de Sousse. Mercado de peixe no chão, vacas mortas a passarem em carroças sem se poderem fotografar, carneiros esfolados pendurados com as moscas à volta, galinhas percorrem os mesmos caminhos que nós. Especiarias. Cheiro a açafrão.

 

O assédio sexual é constante aos elementos do sexo feminino europeus. São simpáticos de mais. "Tuga boa". O que uma pessoa atura.

 

Não se vêem mulheres comerciantes. As suas funções no país centram - se nos domínios da educação e saúde, passando por lugares administrativos e até mesmo de forças de segurança. Mas não no comércio. Desde a década de sessenta do século passado que a poligamia foi proibida e as mulheres puderam pedir o divórcio e casar com quem quiserem, com o tal presidente socialista Habbib não sei quê. Em 1987 houve um golpe de estado e subiu para lá o actual presidente (não sei escrever o nome). A sua propaganda nacionalista, presidencialista, com laivos ditaturais está a funcionar, já lá está há quase vinte anos afinal de contas.

 

Praia típica do Mediterrâneo. Água quente. Mas eu não me esqueço que o Mediterrâneo é rota de petroleiros, os peixes de lá tÊm elevadas concentrações de mercúrio, e recebe os detritos sem qualquer triagem de países como a Tunísia (lógico), Marrocos e até mesmo a nossa poluída europeia Grécia. Nahhh, não me inspira confiança, aquele mar. Parado e poluído, assim o classifico. E a praia é mesmo o mais seca. Praias temos nós aqui. Quem foi para lá só e exclusivamente para a praia, não parava de se queixar no avião. O turismo é de tal forma de massas que a sua qualidade é semelhante à confusão do nosso Algarve. E isso interessa a quem? Pobres de espírito aqueles que não saindo do Meliá não sei quê dizem "Conhecemos a Tunísia!". Numa coisa eles tinham razão, a semana de praia que a maioria passou lá foi dinheiro muito mal gasto. Para mim dois dias chegaram, tanto que depois do circuito acabarem ainda nos metemos numa excursão para Tunis e Cartago. Quando estudei os Cartagineses e os Fenícios, na primária, nunca esperei estar lá.

 

Tunis é uma cidade grande, como deve ser, ou não fosse a capital. As estradas tÊm traçados, são auto - estradas como deve ser, construções como deve ser.

 

Cartago não desilude, apesar do guia dizer que aquilo não era a Pompeia da Tunísia - dado o número de vezes que Cartago foi destruída e pilhada, queimada e desvastada, os vestígios são poucos e não no melhor estado de conservação, e muitos encontram - se ainda em propriedades privadas dos senhores ricos que se apoderaram daquilo na época em que ali construíram, ocultando os achados arqueológicos e saqueando muitos deles. As famosas termas de Antonino, que se encontram mesmo à beira do Mediterrâneo, são a vista do Presidente quando acorda de manhã - o palácio presidencial é ao lado do parque arqueológico. As fotos a tudo o que seja autoridade, pessoas a rezar, palácios presidenciais, embaixadas e edifícios ministeriais estão proibidas. Assim como fotos ao aeroporto.

 

Visitámos também um bairro típico de Tunis (que não sei escrever o nome :s), onde tomámos chá de menta com pinhões (a especialidade :p), descalços, sentados no chão. Tudo muito típico.

 

Para acabar em grande, ontem no hotel julgavam que eu era árabe :D. Estava fresco de manhã e eu vesti o casaco (eu sou muito friorenta!). Calças de ganga, o cabelo, aliás, a juba negra a cair para a frente para variar sem nenhum arranjo possível. Fui pedir uma água ao bar da praia, e enquanto esperava por ela, o chefe de mesa de lá meteu conversa comigo. Só percebi a primeira palavra - Aslama, que segundo eu tinha lido cá significava olá. E falava. Bla bla bla bla bla bla e eu sem entender rigorosamente nada, obviamente, dado que os meus parcos conhecimentos linguísticos não vão além do português, inglês e duas ou três palavras em francês. E foi mesmo em francês que lhe respondi humildemente que não compreendia o que ele tinha falado. O homem franze as sobrancelhas de espanto (e aí irritei - me, qual era o espanto? Não estudamos árabe na escola!) e pergunta - me (desta em francês) se eu falava francês. Un peu, respondi novamente, quase que esgotando os meus conhecimentos da língua francófona. Ele franze ainda mais as sobrancelhas e pergunta English? ao que eu aliviada até sorrio e digo yes, muito contente por finalmente poder entender o que é que ele queria. Pergunta - me de onde sou e eu respondo Portugal. Ele solta então um ahhh muito espantado e diz num ingês mais deficiente que o francês "I think you arabian. like us, seem like us. you arabian, sorry". E eu pergunto se foi por causa do meu cabelo (negro). "No, everything arabian" e aponta para a pele. O que é engraçado é que quando uma moça me veio entregar a água sorri para mim e fala naquela língua esquisita e eu já suficientemente atarantada respondo Merci. :)

 

Gostei imenso. Depois ponho umas fotos numa página online para vocês verem.

Escrito por Silvia em 23:32:12 | Link permanente | Comments (7) |

13 de Agosto, 2005

Férias

Finalmente férias. Segunda feira lá parto eu para a Tunísia e durante sete dias vou viver com os camelos. A ideia entusiasma ;).

Vou ter umas boas férias. Boas férias também. Depois volto, claro. Mais repousada certamente. Pronta para outra, sempre. um beijo*

 


Naquele dia senti uma paz enorme, que me era transmitida pela terra molhada a secar ao sol recém - nascido. Todas as histórias são assim. Abandonadas num banco vazio à espera que alguém se sente e as recorde. Vira a página, também.

Foto por mim, Julho 2005 jardim das Portas do Sol, Santarém.

Escrito por Silvia em 17:14:10 | Link permanente | Comments (4) |

Adaptação no caminho para a aptidão

Comecei a tocar orgão aos cinco anos. Acabei com as aulas e com o exercitar frequente por volta dos onze. Não tenho grande "ouvido", como se diz habitualmente, para a música. Tocava bem, sim, mas pela prática. Aplicava - me por prazer e conseguia resultados satisfatórios. Mas não consigo distinguir a ouvir uma música uma nota mi de uma nota sol. Foi a prática que me fez tocar bem. Adaptei - me às teclas para me tornar apta com as teclas.

Há pessoas que se dizem não hábeis com as palavras, que as usam mal e à pala disso acabam por se safar sempre em palavras que magoam, em palavras que ficam por dizer, em palavras que se disseram mas não deviam ter dito.

É uma questão de exercício. Tal como ninguém pode alegar desconhecimento da lei, acho que ninguém devia alegar incapacidade inata no uso da palavra, que muitos lhe chamam dom. E digo isto porque estou cansada dos comentários preconceituosos que ouço por aí e que não foram ditos por mal, porque estou cansada de falsos testemunhos por parte de pessoas que não sabem prender a língua para as palavras não saírem, cansada de ouvir aquilo que não deve ser ouvido e de não ouvir aquilo que devia ser dito.

O uso correcto e sensato da palavra só se consegue com esforço, dedicação e controlo. Adaptarmo - nos a saber dizer bem o que inicialmente é mau é a aptidão para podermos viver em harmonia numa sociedade que todos construímos.

O "Para Elisa" só se consegue bem tocado depois de meses de prática.

Escrito por Silvia em 17:08:16 | Link permanente | Comments (1) |

10 de Agosto, 2005

Flowers

Foto por mim, Agosto 2005, jardim de minha casa

Escrito por Silvia em 19:12:39 | Link permanente | Comments (3) |

09 de Agosto, 2005

Ela

Não conseguiu parar de falar naquele jantar. O nervosismo percorria as suas entranhas de uma ponta a outra do seu corpo, electrizava o cabelo e fazia com que se sentisse uma adolescente num seu primeiro encontro. Não era um encontro. Não, não era um encontro, que raio de comparação fora a sua mente arranjar! Era apenas um jantar. Um jantar com o seu amigo Jorge. Bah, tanta coisa para quê? Qual o nervosismo? Afinal viajaram até aos Alpes juntos, deram cambalhotas juntos nas aulas de Educação Física, já foram à ópera juntos e dançaram juntos no baile de finalistas. Era só mais um programa deles, ir a um restaurante de luxo. Qual era o problema?

Enquanto tentava convencer – se a si própria da normalidade daquela noite, comia. Comia e comia muito. Comia e falava. Não deixar espaços mortos, não, não. Isso metia – lhe medo, nem ela sabia muito bem porquê. Espaços mortos, não, não. Puxou todos os assuntos que lhe vinham à cabeça, desde o primeiro – ministro a gatos de rua, passando pela BSE. Aqui está a conta, meu senhor. Oh sim, que alívio! Iam – se embora.

Cá fora, tentou novamente puxar conversa enquanto o braço esquerdo de Jorge conduzia – a para o jardim da vila pacata. Mas normalmente Jorge acompanhava –a nos temas de conversa, quantas noites infindáveis de conversa haviam tido! Dando – se conta finalmente do ridículo a que chegara, não prestando sequer atenção se Jorge respondia ou não, resolveu questioná – lo. Bem, não agora, certamente, visto estar a meio de uma dissertação sobre as alfaces importadas da Macedónia. Talvez quando se sentassem. Isso, estava ali um banco de jardim. Óptimo, Jorge dirigia – a para lá. As alfaces já tinham dado toda a conversa possível.

O banco de jardim era duro. Provavelmente, não estaria muito limpo. Porra, um vestido caríssimo. Para se distrair ou talvez para evitar um silêncio constrangedor, olhou em frente. Havia um canteiro daquelas rosas bravas que hoje em dia já cultivam.

Passa – se alguma coisa?

Não. Porquê?

Não falaste durante todo o jantar.

Não foi necessário. As tuas cordas vocais deram o litro.

Olharam – se e riram – se. Maria corou um pouco, envergonhada e pedira desculpa.

Mas agora é a tua vez de falar.

Tens razão Maria, mas que hei – de eu dizer?

Diz qualquer coisa.

Qualquer coisa.

Jorge disse – o rindo e fazendo uma ligeira festa numa mecha do cabelo de Maria. Ela não queria que ele dissesse qualquer coisa. Descobrira que queria que ele dissesse muito daquilo que ela queria dizer. E ela queria dizer muita coisa. Queria dizer que gostava muito dele e que ele fazia parte da sua vida. Queria dizer que já partilharam muita coisa, desde a máquina fotográfica à pasta de dentes, mas que havia mais para partilhar. Queria dizer que ele era especial, queria – lhe perguntar o porquê de um convite formal para algo tão solene e que ela conseguira completamente ridicularizar com as suas alfaces, gatos e vacas. Queria – lhe pedir desculpa pelos seus medos, por não o ter deixado falar e por se comportar como a sua colega de escola e não como a mulher de vestido vermelho e salto alto que ali estava ao seu lado.

Estás a pensar em alguma coisa, Maria?

Não, nada. E tu?

Também nada.

No Solstício de Verão, o dia é o maior do ano. Ainda havia sol quando saíram do restaurante. Estava a começar a escurecer, agora, e o seu vestido vermelho parecia mais cor – de – vinho. Olhou as rosas que ali continuavam impávidas e se reproduziam exponencialmente à espera de serem arrancadas, dadas, oferecidas.

Não falas mais nada?

Não consigo dizer mais nada. Já falei muito. E tu, não tens nada para falar?

Já falaste de tudo o que se podia falar.

 

 

Então não se podia falar daquilo.

Ficam sempre tantas histórias por contar.

Ficam sempre rosas para dar.

Escrito por Silvia em 20:02:54 | Link permanente | Comments (5) |
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