Cheguei a Lisboa segunda-feira à noite, o avião com uma hora de atraso. Cheguei há pouco a casa :). Balanço positivo desta viagem.
Não será novidade afirmar que a Tunísia é um país totalmente diferente. Lógico e previsível dado as diferenças espaciais e religiosas que condicionam e muito o carácter de um país.
A chegada ao aeroporto não teve nada de impressionante. As letras árabes ao lado das ocidentais Habbib Bourguiba (indicando o nome do aeroporto) é que faziam lembrar aonde tínhamos acabado de aterrar.
Um aeroporto grande e concorrido como Monastir pareceu, à primeira vista, o aeródromo de Viseu. Uma coisa pequenina e mal organizada, rudimentar com filas e filas para mostrar os passaportes (como tudo é tão fácil na União Europeia!). Uma grande faixa, em árabe e em francês, dizia (li obviamente na segunda língua que mencionei) "Bienvenue aux Tunisiens residant à l' Etranger". Nós agradecemos a hospitalidade.
Não tardámos a perceber a razão da especificidade das boas-vindas. Depois de termos recolhido as malas e sermos enfiados no autocarro 34 da Travelplan (hey, o autocarro para Lloret também era o 34 lembrei-me agora! que coincidência :) ), tivemos que andar ainda cerca de três quartos de hora até Sousse, onde ficaríamos hospedados em Port de Kantaoui. Pelo caminho, passámos não apenas por várias localidades, sendo as cidades maiores Monastir e por fim Sousse. Bandeiras por todo o lado. Bandeiras, claro está, tunisinas. A bandeira vermelha com a lua e a estrela branca não figurava apenas em vários edifícios, como era enfeite de rotundas, de ruas, pequeninas, grandes, miniaturas ou oficiais. Ainda pensei que fosse tempo de festa, mas não. Aquilo é mesmo assim. Quer no litoral, quer no interior, nas regiões mais inóspitas do deserto ou nas montanhas, a bandeira figura em todo o lado. Mas não é a única presença oficial. A foto do Presidente aparece por todo o lado, em todas as casas, hotéis, lojas ou barracas de venda, no litoral ou no meio do deserto. E depois, são os seus cartazes, como se estivessem em propaganda eleitoral. Umas vezes aparece de frente, outras de lado, outras a sorrir, algumas de traje tradicional árabe, outras de fato ocidental (procurar o apoio dos conservadores/fundamentalistas e dos que tornam a Tunísia num país turístico? Talvez.). O culto ao chefe num regime presidencialista nacionalista!
Três dias de circuito intensivo, mais um dia de excursão opcional fora do pacote, permite afirmar que ficámos efectivamente a conhecer o país. Os que optaram por fazer mini - circuito, não se limitaram a ficar numa estância turística, totalmente ocidentalizada longe da realidade do país em que muitos dos seus habitantes sofrem de uma total inadaptação económica e social. As várias etnias berberes, os bairros chiitas, a fraca ou nula noção de ambiente ou ecologia, os meios agrícolas encontrados para fazer face às dificuldades em que o clima hostil os coloca, compõem a Tunísia enquanto país do Norte de África, com o deserto do Sahara e islâmico.
A Tunísia dispõe de um riquíssimo e vasto património histórico, resultado das inúmeras ocupações a que foi sujeita no passado. O anfiteatro de El Jem é o 3º maior anfiteatro romano do mundo (o primeiro é, obviamente, o Coliseu de Roma). Foi a primeira visita feita. Vendedores, vendedores por todo o lado. Um dinar, um dinar, ouve - se isto por toda a parte. Uma voz que dificilmente esquecerei, foi a de um homem a berrar aos quatro ventos, à entrada do anfiteatro de El Jem, "PORTUGUESES, PORTUGUESES, ÁGUA DO LUSO, ÁGUA DO LUSO PORTUGUESES". Bom olho para o negócio. Espanhóis e portugueses compõem a grande parte dos turistas, com maior percentagem dos primeiros (o que também não é de admirar). Lá, as pessoas falam três ou quatro línguas. Francês (obviamente, também), Inglês, Espanhol e depois o Portinhol e o Italianhol, ou seja falam espanhol mas dizem bom dia e bon journo ou lá como se escreve. O droit de photo é que ameaçou estragar o encanto perfeito das ruínas de El Jem a erguerem - se no céu. 1 dinar em todos os monumentos para tirar fotos. Livra.
A terra calcinada e estéril, com oliveiras (no interior, mas ainda não deserto), está repleta de plásticos, garrafas e sacos, abandonados no campo, à beira das estradas, nas ruas de terra batida. Vêem - se rebanhos (os animais magros), crianças e mulheres, sempre com saias e lenços a trabalhar no campo. Sucatas de pequenas dimensões aparecem também no meio do campo. Lixo, tanto lixo. Cactos que dão figos. As construções parecem ruínas, tijolo e adobe. Há muitos materiais de construção abandonados e vêem - se as crianças a brincar ao pé de uma máquina de fazer cimento enquanto o cavalo ao lado come qualquer coisa rodeado de galinhas. As estradas não têm traçado no interior, conduz - se arbitrariamente, contra-mão, sem cinto, ultrapassando ora pela esquerda ora pela direita. À beira da estrada vende - se gasóleo em garrafões de plástico (como não podia deixar de ser). Quando vemos uma povoação e paramos, verificamo - nos com "Câmbios", ou seja Bancos, rudimentares, onde os funcionários fumam, o serviço é lento e aquilo não tem a nenhum de caixa - forte. Continuamos pela estrada. Poços antigos, baldes com roldanas. Os veículos que passam por nós são na sua maioria velhos e todos sujos, de tal forma que a grande maioria das matrículas nem se vê. Porém, em cada cruzamento há sempre polícia, sem excepção. À noite, há muitas pessoas nas localidades, mas poucas ou nenhumas mulheres. O sinal de trânsito STOP está escrito em árabe também. Passamos de casas sem telhado para pequenos palacetes, com arcos e abóbadas. Creches ou escolas para crianças, a indicação está escrita em árabe mas têm pintados na parede o pato Donald e o rato Mickey. Portugueses? Oh, Figo! Maria Burroso! Pauleta, Mourinho! Figo finito... finito Figo.
Casas trogloditas. Com temperaturas superiores a 45ºC viver debaixo da terra parece um pequeno paraíso. Berberes. Moer o pão, tecer. Mãos e pés pintados das mulheres casadas, quanto mais escura a pigmentação, há mais tempo estão casadas. Prata berbere.
Deserto, tempestade de areia. Complicado, no deserto sem óculos encostados à cara e lenço no nariz tornar - se - ia complicado andar de camelo. De jipe no deserto. Condução maluca e dizem - nos que não é preciso pôr o cinto. Eu ia com o cinto bem posto e agarrada ao banco e mesmo assim a minha cabeça batia ritmicamente no tecto do jipe, dado os solavancos enormes que conduzir com velocidade em dunas aquilo provoca. Uma mala caiu de um jipe. Pára o jipe para se apanhar a mala. Atolou. Vamos empurrar o jipe. Pronto, já está. Mais à frente. Outra mala caiu, partiu o vidro de um. Não faz mal, continuamos. Descer dunas íngremes!
Continuamos. Lago salgado, muito iodo. Miragens ao fundo. Barracas de venda (como em todo o lado), mas esta dizia "Más barato que en carrefour!" e "Mujer española es estupenda". Fronteira com a Argélia, Chebika (outra etnia berbere). Vivem em montanhas que só vira em filmes, e afinal, fora lá mesmo que foram filmadas algumas cenas de Star Wars. As ruínas do povo antigo. As construções onde vivem os actuais quatrocentos Chebika. Vivem das minas de fosfato e da agricultura que praticam. 48ºC à sombra. Ali há uma nascente, e questionamo - nos como pode uma pequena nascente alimentar um oásis daquele tamanho. Aconselharam - nos vivamente a não beber daquela água que nos desenrrajaria os intestinos. Eles já estavam habituados, diziam. Crianças, só crianças a descer as montanhas. Um miúdo pede - me que lhe tire uma foto e espanta - se com os seus olhos verdes quando lha mostro.
Cascata Maior do deserto. Coitadinha. Pouco maior é que a nascente anterior e que a nascente do Rio Mondego. Mas é a maior cascata do deserto, claro, o que também não é muito difícil. Impressionante.
Simulação de um casamento berbere. Turistizado, ao máximo. Impecável organização e serviço, numa tenda lindíssima, com refeição completa, vinho rosé e tinto, espectáculos de malabarismo, homens a cuspir fogo, música tradicional, encantamento de serpente, e claro, dança do ventre. Simulação de lutas árabes com cavalos, mostrando as suas habilidades com os animais através da sua própria flexibilidade. Não gostei muito disto porque depois a agradecerem os aplausos aproximavam a espada da pata do cavalo e este encolhia as pernas - a intenção era a vénia, mas dava para imaginar o quanto os animais foram torturados com a espada para o medo para com ela ser tanto.
Visita aos oásis. Três níveis de cultivo. As palmeiras, as mais altas, dão sombra às árvores de fruto (romãs, figos, amêndoas, não há muita variedade também), que por sua vez dão sombra aos produtos agrícolas como as abóboras, as couves, e claro, não podia faltar, o piri - piri e as malaguetas. Sobem três vezes à palmeira num ano. A primeira, para fazer polinização artificial (a palmeira macho é a mais alta), o que significa directamente mais tâmaras. A segunda, é para a poda - cortam os ramos secos. A terceira é para comer. Dão a beber sumo de palmeira e sentem - se bem em ensinar coisas que nos deixam encantados. Falhou um bocado a mostrarem que depois de retirarem o sumo da palmeira (cortam a palmeira e tiram de lá) o tronco que vai crescer a partir daí é menos grosso. Falaram aquilo como que a mostrar algo sobrenatural, de um modo que me enterneceu. Pena a biologia tirar - me todo o encanto e saber que o sumo nada mais é que o floema e que é perfeitamente natural que o caule seguinte cresça mais pequeno - crescimento centrífugo. Cruel ciência. Visita a um bairro Chiita. Mulheres vestidas todas de preto. Não olham para nada nem para ninguém. Só crianças. Portas pintadas de verde no interior (por causa das palmeiras), de azul na costa (mar). Três batedores, um para a mulher, outro para o homem, um mais baixo para as crianças. Fast Food em alfabeto ocidental e em letras árabes, num bairro onde as mercearias escuras faz lembrar o início do século XX. Miúdos a pedir, muitos miúdos, tanta criança!
Kairouan, terra dos tapetes e o 4º Santuário religioso islâmico do Mundo. A arte da tapeçaria de Kairouan tem muito que se lhe diga, extremamente trabalhosa e bastante demorada.
Sousse, Medina de Sousse. Mercado de peixe no chão, vacas mortas a passarem em carroças sem se poderem fotografar, carneiros esfolados pendurados com as moscas à volta, galinhas percorrem os mesmos caminhos que nós. Especiarias. Cheiro a açafrão.
O assédio sexual é constante aos elementos do sexo feminino europeus. São simpáticos de mais. "Tuga boa". O que uma pessoa atura.
Não se vêem mulheres comerciantes. As suas funções no país centram - se nos domínios da educação e saúde, passando por lugares administrativos e até mesmo de forças de segurança. Mas não no comércio. Desde a década de sessenta do século passado que a poligamia foi proibida e as mulheres puderam pedir o divórcio e casar com quem quiserem, com o tal presidente socialista Habbib não sei quê. Em 1987 houve um golpe de estado e subiu para lá o actual presidente (não sei escrever o nome). A sua propaganda nacionalista, presidencialista, com laivos ditaturais está a funcionar, já lá está há quase vinte anos afinal de contas.
Praia típica do Mediterrâneo. Água quente. Mas eu não me esqueço que o Mediterrâneo é rota de petroleiros, os peixes de lá tÊm elevadas concentrações de mercúrio, e recebe os detritos sem qualquer triagem de países como a Tunísia (lógico), Marrocos e até mesmo a nossa poluída europeia Grécia. Nahhh, não me inspira confiança, aquele mar. Parado e poluído, assim o classifico. E a praia é mesmo o mais seca. Praias temos nós aqui. Quem foi para lá só e exclusivamente para a praia, não parava de se queixar no avião. O turismo é de tal forma de massas que a sua qualidade é semelhante à confusão do nosso Algarve. E isso interessa a quem? Pobres de espírito aqueles que não saindo do Meliá não sei quê dizem "Conhecemos a Tunísia!". Numa coisa eles tinham razão, a semana de praia que a maioria passou lá foi dinheiro muito mal gasto. Para mim dois dias chegaram, tanto que depois do circuito acabarem ainda nos metemos numa excursão para Tunis e Cartago. Quando estudei os Cartagineses e os Fenícios, na primária, nunca esperei estar lá.
Tunis é uma cidade grande, como deve ser, ou não fosse a capital. As estradas tÊm traçados, são auto - estradas como deve ser, construções como deve ser.
Cartago não desilude, apesar do guia dizer que aquilo não era a Pompeia da Tunísia - dado o número de vezes que Cartago foi destruída e pilhada, queimada e desvastada, os vestígios são poucos e não no melhor estado de conservação, e muitos encontram - se ainda em propriedades privadas dos senhores ricos que se apoderaram daquilo na época em que ali construíram, ocultando os achados arqueológicos e saqueando muitos deles. As famosas termas de Antonino, que se encontram mesmo à beira do Mediterrâneo, são a vista do Presidente quando acorda de manhã - o palácio presidencial é ao lado do parque arqueológico. As fotos a tudo o que seja autoridade, pessoas a rezar, palácios presidenciais, embaixadas e edifícios ministeriais estão proibidas. Assim como fotos ao aeroporto.
Visitámos também um bairro típico de Tunis (que não sei escrever o nome :s), onde tomámos chá de menta com pinhões (a especialidade :p), descalços, sentados no chão. Tudo muito típico.
Para acabar em grande, ontem no hotel julgavam que eu era árabe :D. Estava fresco de manhã e eu vesti o casaco (eu sou muito friorenta!). Calças de ganga, o cabelo, aliás, a juba negra a cair para a frente para variar sem nenhum arranjo possível. Fui pedir uma água ao bar da praia, e enquanto esperava por ela, o chefe de mesa de lá meteu conversa comigo. Só percebi a primeira palavra - Aslama, que segundo eu tinha lido cá significava olá. E falava. Bla bla bla bla bla bla e eu sem entender rigorosamente nada, obviamente, dado que os meus parcos conhecimentos linguísticos não vão além do português, inglês e duas ou três palavras
em francês. E foi mesmo em francês que lhe respondi humildemente que não compreendia o que ele tinha falado. O homem franze as sobrancelhas de espanto (e aí irritei - me, qual era o espanto? Não estudamos árabe na escola!) e pergunta - me (desta em francês) se eu falava francês. Un peu, respondi novamente, quase que esgotando os meus conhecimentos da língua francófona. Ele franze ainda mais as sobrancelhas e pergunta English? ao que eu aliviada até sorrio e digo yes, muito contente por finalmente poder entender o que é que ele queria. Pergunta - me de onde sou e eu respondo Portugal. Ele solta então um ahhh muito espantado e diz num ingês mais deficiente que o francês "I think you arabian. like us, seem like us. you arabian, sorry". E eu pergunto se foi por causa do meu cabelo (negro). "No, everything arabian" e aponta para a pele. O que é engraçado é que quando uma moça me veio entregar a água sorri para mim e fala naquela língua esquisita e eu já suficientemente atarantada respondo Merci. :)
Gostei imenso. Depois ponho umas fotos numa página online para vocês verem.