... a quem ainda não viu a ler o post de 8 de Setembro no blog da Gotika (http://gotikka.blogspot.com) e a ler os comentários. A sugestão do Goldmundo, vou postar o meu último comentário aqui:
Empreendedorismo temos nós tido de menos, muito de menos. O tipo que estaciona o carro em cima do passeio é um imbecil porque arranja a solução mais fácil para a falta de estacionamento. (O imbecil que cospe na rua nem é assim tão imbecil porque é biodegradavel - é mais imbecil o que deita o lixo para o chão.) O tipo que desenrasca e se desenrasca é, mais facilmente que qualquer um dos atrás mencionados, um empreendedor. Penso que o diagnóstico está feito e não precisa de o ser feito oficialmente. Os problemas multiplicam-se ao virar da esquina mas todos têm a origem comum do facilitismo, preguiça e sebastianismo latente às vezes patente - na nossa democracia. São estes três factores que continuam a ser invocados, exaltados e cultivados na nossa sociedade estando bem patentes no nosso ensino, na nossa saúde, até mesmo num jogo de futebol. De tão enraizado, difícil é sair, certo. Mas dizer que Portugal está condenado a uma Andaluzia Ocidental, Gold, é efectivamente o culto das duas primeiras premissas facilitismo e preguiça. Apenas o sebastianismo, a única que poderia ser útil das três, desaparece. E porque é que o sebastianismo poderia ser a única útil das três? Se fosse transformado para um sebastianismo colectivo. E não, não, não é nenhum romantismo comunista. Talvez Antº Vieira seja o culpado disto tudo fez acalentar esperança onde dificilmente havia alguma. Talvez Pessoa, na Mensagem, seja outro grande culpado ele, por exemplo, fez o diagnóstico e acalentou a esperança. O que me transtorna nesta toda esperança messiânica que paira no ar é o facto de ser projectada para o futuro sem nenhuma acção presente. Não há construção, não há caminho cai do céu. Ou não cai. E quando não cai queixam-se. E, lá está, os espanhóis para afastar a trovoada dos pomares do lado de lá de Juromenha lançam foguetes. Nós pedimos subsídios depois da trovoada dar cabo das colheitas. E é uma esperança messiânica rotativa, a bel-prazer de quem a cultiva no caso dos pomares é o Estado, no caso da chuva é Deus, no caso do Benfica são os reforços. É claro que nunca ninguém acreditou que se calhar era bem mais prudente pôr os jogadores do Benfica a jogar bem em vez de esperar por outros que joguem melhor. Assim como era bem mais prudente que cada português, cada pedacinho do sistema, cada micro-cosmos desse o melhor de si em prol do bem do cosmos. Dança dos planetas, acção-reacção, equilíbrio, a parte pelo todo, o todo pela parte. É muito nesta linha que entra a questão do espírito empresarial intimamente ligada ao chavão do empreendedorismo. Este conceito envolve três níveis: o indivíduo, a empresa e a sociedade os tais pedacinhos do sistema, a parte pelo todo. Um artigo interessantíssimo da revista Dirigir do mês de Julho (salvo erro), intitulado Iniciativas Locais de Emprego, fundamentado com dados estatísticos, decretos-lei, portarias, regulamentos e despachos que oferecem credibilidade ao artigo identificava as características que os empresários têm em comum: exactamente três. 1) Disponibilidade para assumir riscos, 2) Gosto pela independência e pela realização pessoal, 3) capacidade criativa. Estas, são exactamente o contrário de respectivamente 1 )o facilitismo, visto que nunca se escolhe o caminho mais complicado mesmo que seja o mais promissor, 2) o sebastianismo porque estamos sempre presos a um terceiro e 3) preguiça porque criar dá trabalho. Ser cidadão português deveria então passar por ser uma espécie de empresário da República Portuguesa, que o levasse, aos seus e aos outros a bom porto. O D. Sebastião renascido das cinzas seria nós todos.
E como fazer de nós todos D. Sebastião, fica para quando me perguntarem isso. Ou quando retorquirem usando a palavra utopia %).