31 de Agosto, 2005

Alentejo & Beira

“O Alentejo que conheço desde pequena, aliás, o Alto Alentejo (Baixo, só de passeio), incorpora um desespero muito à Espanca (ou não fosse ela calipolense, mas atribuo - lho mais tragicidade e menos lirismo, tornando - o mais sólido e menos difuso, menos pálido e mais presente no panorama nacional, possuindo características entroncadas de sonho inacabado à semelhança da planície que ele traja, sonho inacabado esse porque a planície tece-lo - o deserto invoca a miragem, a planície o sonho. É um engano, uma máscara de terror, ver toda a liberdade aos nossos pés, não há limite no nosso horizonte mas não haver nada, nada com que nos sintamos satisfeitos. Sempre mais. O Alentejo pede mais e nunca oferece esse mais, é terra demoníaca.

 

A Beira trava, a Beira limita, a Beira auspicia o fim, até o corvo faz mais sentido aqui que em qualquer outro sítio do país. Esta gente granítica, lapidada e polida ano após ano continuando rústicas, com as arestas pintadas ano após ano de branco, continuando sujas, vê os seus sonhos confinados à terrível tarefa rotineira de levar a sua vida a bom porto (alegoria descontextualizada, aqui não há mar e ainda bem que não há). A montanha, cuja subida é por si extremamente penosa, representa um obstáculo que parece enviado dos céus. Aqui vives revoltado por não te darem a hipótese de sonhar – o trigo é destruído antes de lhe ser dada a hipótese de crescer. As rugas da Beira são rugas talhadas de resignação, trabalho e força. A montanha é o limite. A Beira é o aborto do sonho.

 

A Beira e o Alentejo são as únicas terras cujas gentes vivem à roda de sonhos. A Beira esquece – os e fortalece – se. O Alentejo alimenta – os e fragiliza – se.”

 

O texto é meu. Está entre aspas porque foi criado durante uma conversa. Pensado em passeio por Seia e Gouveia.

Escrito por Silvia em 21:01:29 | Link permanente | Comments (6) |
Comentário
1 - Todo o Portugal é a ânsia de ser a Galiza, ou a ânsia de ser o deserto, ou a ânsia de ser o mar. As únicas regiões que têm um nome são o MInho e o Algarve. Todas as outras são um ponto-de-vista, o ponto de vista do Minho-Galiza: "trás-os-montes"; "beira" (=fronteira), "extremadura" (=fronteira, também), terras de riba e de além do tejo. O nosso símbolo devia ser a quimera, ou o centauro, ou a sereia: um corpo meio-água meio-sol, a união impossível de um homem celta e de uma mulher berbere.

Gostei muito do teu texto. (Comentar)

Escrito por: Somerled em 2005/09/01 - 14:25:37
2 - O Douro é bem absoluto. Já o Algarve infelizmente não. É totalmente relativo de um ponto de vista árabe, sendo que era a terra ocoupada pelos Vândalos de Oeste, Gharb (oeste) al-Andaluz, tendo ficado al-Gharb.

Extremadura com x é na Hispânia ;) (Comentar)

Escrito por: Ringthane em 2005/09/01 - 17:06:41
3 - OcUpada, xiça. (Comentar)

Escrito por: Ringthane em 2005/09/01 - 17:08:05
4 - Bom texto.
Fez-me lembrar um livro autobiográfico de Miguel Torga, sobre as várias regiões do nosso país.
O livro é "Portugal" (1950). Penso que tem mais umas quantas reedições posteriores. (Comentar)

Escrito por: Sertorius em 2005/09/01 - 17:58:49
5 - chiça (Comentar)

Escrito por: xiça não ;) em 2005/09/01 - 20:19:35
6 - Foi piada ao xis, caraças! (Comentar)

Escrito por: Ringthane em 2005/09/01 - 20:30:44