Alentejo & Beira
O Alentejo que conheço desde pequena, aliás, o Alto Alentejo (Baixo, só de passeio), incorpora um desespero muito à Espanca (ou não fosse ela calipolense, mas atribuo - lho mais tragicidade e menos lirismo, tornando - o mais sólido e menos difuso, menos pálido e mais presente no panorama nacional, possuindo características entroncadas de sonho inacabado à semelhança da planície que ele traja, sonho inacabado esse porque a planície tece-lo - o deserto invoca a miragem, a planície o sonho. É um engano, uma máscara de terror, ver toda a liberdade aos nossos pés, não há limite no nosso horizonte mas não haver nada, nada com que nos sintamos satisfeitos. Sempre mais. O Alentejo pede mais e nunca oferece esse mais, é terra demoníaca.
A Beira trava, a Beira limita, a Beira auspicia o fim, até o corvo faz mais sentido aqui que em qualquer outro sítio do país. Esta gente granítica, lapidada e polida ano após ano continuando rústicas, com as arestas pintadas ano após ano de branco, continuando sujas, vê os seus sonhos confinados à terrível tarefa rotineira de levar a sua vida a bom porto (alegoria descontextualizada, aqui não há mar e ainda bem que não há). A montanha, cuja subida é por si extremamente penosa, representa um obstáculo que parece enviado dos céus. Aqui vives revoltado por não te darem a hipótese de sonhar o trigo é destruído antes de lhe ser dada a hipótese de crescer. As rugas da Beira são rugas talhadas de resignação, trabalho e força. A montanha é o limite. A Beira é o aborto do sonho.
A Beira e o Alentejo são as únicas terras cujas gentes vivem à roda de sonhos. A Beira esquece os e fortalece se. O Alentejo alimenta os e fragiliza se.
O texto é meu. Está entre aspas porque foi criado durante uma conversa. Pensado em passeio por Seia e Gouveia.


Gostei muito do teu texto. (Comentar)
Extremadura com x é na Hispânia ;) (Comentar)
Fez-me lembrar um livro autobiográfico de Miguel Torga, sobre as várias regiões do nosso país.
O livro é "Portugal" (1950). Penso que tem mais umas quantas reedições posteriores. (Comentar)